Relato da participação no La Bocainita, um evento de bikepacking, em maio-junho de 2024 em 4 dias, saindo de Rio de Janeiro e chegando em Paraty. Uma imersão em topografias espetaculares, terrenos e texturas das mais esquisitas e na comunhão com amigos-ciclistas tão queridos. Escrito por Danilo Lessa Bernardineli com revisões e sugestões de Gustavo Saiani e Vinicius Barros.
O que é o La Bocainita
O La Bocainita é uma rota, um pedal ou uma comunhão entre estradas e trilhas no meio da Bocaina entre o Rio de Janeiro e Paraty. La Bocainita pode ser a rota proposta e disponível ou pode ser o evento onde, por coincidência, diversos amigos e fãs da bicicleta se encontram e largam numa data e hora para fazer a rota citada ou partes dela.
Também por coincidência, estes optaram por levar uma vasta variedade de bolsas de bikepacking, pneus largos de terra e equipamentos para se acampar selvagem na temperatura e umidade que ocorre no coração dos Altos da Bocaina.
Essa ambígua terminologia começou com o Rio Divide em 2022, continuou para o Rio Unite em 2023, do qual devo um grande relato, e neste ano foi o que foi. O grupo do Zap, aliás, é o mesmo e tem o seu título alterado anualmente.
Uma descrição que faz justiça com o que é a rota consta lá no anúncio, no qual parafraseio:
“Do Jardim Botânico do Rio de Janeiro a Paraty.
Nem todo paraíso é inalcançável. Nem todo céu virou resort.
A Serra da Bocaina é um desses lugares, tão próxima de nós do Rio e de São Paulo, e que quase ninguém conhece. Como diria Fernando Vanucci, ela é logo ali — e nós vamos, não apenas na beirada, mas no coração de um dos lugares mais lindos do Brasil.
Parque Municipal de Grumari, os mangues de Sepetiba, Serra do Matoso, as ruínas do Parque São João Marcos, a represa da Brastel, o onírico Sertão da Onça, Parque Nacional da Serra da Bocaina, Pico da Boa Vista, Lagoinha, Cunha, Pedra da Macela e uma cachacinha pra relaxar em Paraty.
Prepare-se para um caminho ideal para acampar, e com alguns longos trechos sem seres humanos à vista. Prepare-se para caminhar e empurrar a bike. Prepare-se para ver a Mantiqueira da varanda da Bocaina, e sorrir de orelha a orelha. Prepare-se para o pior e o melhor.”
A Rota

A rota é um percurso de Rio de Janeiro até Paraty, no qual se dá ênfase para os sertões localizados entre o Vale do Paraíba e o Litoral. Cerca de um terço da rota se passa acima do Maciço da Bocaina, outro terço se passa nos mares de morros que rodeiam o Vale do Paraíba (seja pelo lado de Barra Mansa, ou seja, pelos Campos de Cunha), e o outro terço final está nas planícies do litoral.
Os cem quilômetros iniciais são o percurso típico para sair do Rio: Barra da Tijuca, Santa Cruz e Itaguaí, até chegar na Serra do Matoso, onde diversas bifurcações são possíveis. Uma das quais dá acesso para a rota do Rio Unite.
Após isto, a elevação média passa de trinta metros para seiscentos metros. Estamos em um dos braços do Vale do Paraíba. Começa também o trecho sem sinal de celular e de ocupação esparsa, até chegar no Vale do Bananal, onde se localizam diversas pequenas vilas: Getulândia, Passa Três e Bananal.
Alguns quilômetros após Bananal, inicia-se uma subida que faz a elevação média passar de seiscentos metros para 1650 metros. Tal porção é a transição para o cobiçado Maciço da Bocaina, o qual irá acompanhar a rota até o Alto da Boa Vista, o ponto mais alto da rota, que está a 1950 metros de altitude e está localizado no divisor entre o Rio Paraíba e o Rio Paraitinga. De lá é possível visualizar cidades como Campos de Cunha, Queluz e Resende, assim como virtualmente a Serra Fina da Mantiqueira inteira.
Uma vez descido, volta-se ao mar de morros, que irá acompanhar até a descida (ou subida) de Cunha-Paraty, que, aliás, é o segmento inclinado mais longo de asfalto no Brasil. De lá, estamos em Paraty.
As Expectativas



É de praxe antes da realização destas rotas complexas fazer um inventário das expectativas. Dado ser um evento de bikepacking, o primeiro é a previsão do tempo, especialmente dada a chegada da primeira frente fria do ano no exato dia em que possivelmente estaríamos no coração da Bocaina. Todos os modelos concordam que não haverá chuva. E todos concordam que será frio lá no alto. A previsão para a temperatura para os pernoites está próxima de 9 graus no primeiro dia, 6 graus no segundo e 7 graus no terceiro. Em todos os dias, a umidade prevista é próxima de completamente saturada.
A temperatura baixa não me assusta. Mas a umidade junto a esta sim. Especialmente ao unir o vento e o solo úmido. Não à toa, conversas sobre equipamentos de bivaque foram possivelmente o principal tópico no Zap durante as prévias.
Outra quantificação de expectativas é em relação ao tempo previsto, cujos detalhes merecem talvez outro artigo. Possivelmente em inglês e no formato PDF. É tudo baseado numa contabilidade energética das coisas, considerando que propriedades mudam na terra – em particular, a rolagem fica com mais atrito – e que existe uma relação não trivial entre geomorfologia e conservação de energia, demonstrado fartamente aqui neste Brasil pelo Mar de Morros onde o embalo é rei.
Os resultados são: prevê-se 34 horas em movimento de pedal num cenário “mediano”, 43 horas e meia num cenário “pessimista” ou mesmo 28 horas num cenário otimista. Na prática, quase sempre o resultado é algo no meio entre mediano e pessimista. Felizmente, como esta postagem foi escrita após, temos um veredito: foram 31 horas e meia. Mais rápida que a previsão mediana. Mas também não seguimos exatamente a rota proposta, dificultando a comparação.
Finalmente, a expectativa final: o qual é sobre o sinal 3G. A conclusão: nenhum após subirmos a Serra do Matoso até descermos a Bocaina. Salvo por Bananal, a parada mais estratégica de toda a rota.
Relato Cronológico
Dia 0: São Paulo até Rio de Janeiro
Acordo às cinco e meia da manhã para tomar um café da manhã expresso e pedalar para a rodoviária. O percurso de minha casa aqui na convergência dos córregos da Água Preta até a Rodoviária do Tietê é uma pequena homenagem para esta urbe tão complexa e dura. Sigo pelas vielas e pelos concretos acima do enterrado rio até chegar ao Shopping, o ponto onde irradia o fluxo para e de todas as direções. De lá, vou pela planura da avenida paralela ao grande rio até passar pela ponte, e ver o nascer do sol naquilo que tudo já foi pântano, águas curvadas e pássaros. No caminho, passo e furo por fileiras e comboios extensos de corpos metalizados e plásticos. Chego na Rodoviária: um castelo soviético de concreto, para lá entrar no coletivo que irá me transportar. Jogo a bicicleta de qualquer jeito. Durante a viagem, fico com os olhos atentos ao sudeste na esperança de ver as escarpas que me esperam.






Chego ao Rio. Sempre um pouco confuso para sair da rodoviária. E um pouco confuso também para sair do centro. Uso o oceano como guia para me navegar até o Botafogo — um oásis de quinze minutos, e onde se encontra o passo que irá me levar para o meu hospedeiro, Gustavo, que gentilmente disponibilizou o apartamento para o usufruto de mim e Renato. Antes de chegar lá, aproveito para fazer os corres: almoçar, pegar repelente, pegar barra proteica e imprimir um mapa topográfico A3 no papel de tecido. Este, aliás, virou um presente para todos.
Finalmente, o aconchego. O apartamento do Gustavo é multidimensional. Pinturas, bicicletas, livros, piano, desenho das crianças, aparelhos tecnológicos, janelas vendo o boteco e o bairro subindo o morro, oficina, beliches, etc. Um pequeno microcosmo. Tomo banho e vou ao encontro dos amigos que irão partir amanhã, bem como os simpatizantes da empreitada toda. Jantamos e dormimos. Ansioso pelo que há de vir.






Dia 1: Rio de Janeiro até Rio Claro
Todos nós do apartamento do Gustavo acordamos às quatro da manhã. Enquanto eu e Renato nos arrumávamos, Gustavo nos preparou uns pães australianos com ovo e café de máquina. Estando alimentados, descemos do prédio e pedalamos para o Jardim Botânico, chegando nele na hora prevista: cinco e ponto da manhã.
Estão todos lá, tiramos fotos e começamos a pedalar, ocupando-se faixas em sua totalidade e passando com segurança pelas ruas de asfalto sem asfalto devido às obras de recapeamento típicas do ano eleitoral. A saída do Rio de Janeiro por estrada parece sempre seguir o mesmo roteiro: pedalar na beira-mar ao lado da Vidigal e tomar a decisão de subir o Joá ou seguir pela Praia do Pepino e o túnel de São Conrado (este qual foi feito no Rio Unite) para chegar na via expressa dos estradeiros: a Barra da Tijuca. Optamos, em maioria, pelo Joá para fazer a peregrinação em um importante mural no mirante de lá, envolvendo as mãos do querido Diego Uribbe por meio do Coletivo Muda. Já o Vinicius, Betão, Jansen e o outro Danilo (que estava de companhia) optaram pelo túnel.




Descendo para a Barra da Tijuca, começa a pelotagem. O amanhecer é bem cartão postal: morros imensos de fundo nos quais dois dígitos de andares de prédios na dianteira destes soam pequenos. O efeito da luz, água e neblina gera um visual cinematográfico. Seguimos até a padaria, para então reabastecer e em seguida ter os primeiros vislumbres de mato, vigiados em sua entrada por um castelo em construção. Um pequeno plano se segue até começar a subida para a Grota Funda, um pequeno e irrisório aquecimento para o que há de vir.
Grota Funda marca a transição para fora da urbe do Rio de Janeiro e para a borda da região metropolitana. Lá, pegamos pequenos trechos de terra em bairros espraiados, subúrbios norte-americanos sem os dólares, que envolvem uma antiga vila de pescador, Guaratiba. Por lá passamos por pontes de madeira, mangues, cascalhos e vielas. Clima de festividade entre vizinhos, um encanto. Tiramos fotos e continuamos rumo a Santa Cruz, onde a feição se torna mais tensa.





Vias estreitas congestionadas, com motoristas apressados e pouco empáticos com o espaço. Quebra-molas numerosos no desespero de se conter a velocidade destes. Um trecho onde o tempo correu rápido.
Tudo se acalma após o Rio Guandu, que se encontra próximo de sua foz no oceano, e que teremos um encontro ao final do dia, cujo reservatório em prol da produção de eletricidade fez de vítima o município de São João Marcos. Em Itaguaí abastecemos na Padaria para então começar os trabalhos: a subida para a Serra. Até então, 96 quilômetros foram percorridos em seis horas totais, nos quais 551 metros de subida foram acumulados e 1640 kJ de energia de movimento foram dispendidos. O restante do dia irá subir 1761 metros em 79 quilômetros, resultando num uso de 2100 kJ de energia de movimento.
Pedalamos então rumo ao Parque Municipal da Serra da Calçada, onde se encontra a Serra do Matoso, a mesma subida usada de acesso inicial para os planaltos interioranos durante o Rio Unite do ano passado. Só que ao invés de seguir reto rumo a Caçador, pegamos uma bifurcação rumo para as nascentes do Ribeirão de Lajes. A subida é feita durante o sol do meio-dia, o que a torna particularmente dura. O topo é numa rampa onde se pratica decolagem de asa delta, e após isto, o caminho torna-se ermo e opções de alimentação escasseiam.



Todo o desejo passa a ser encontrar um mero pão com ovo. O desejo de se alimentar num botequim caipira é frustrado quilômetro a quilômetro, sendo somente parcialmente realizado ao bater na porta de um boteco fechado para então conquistar um pacote de salgadinhos Torcida e água congelada. Renato, em particular, adota métodos próprios para descongelar a água.








Após 4 horas de terra e 3 horas de planalto, chega-se ao asfalto. Está tarde: são três e meia da tarde. Os dois pontos turísticos do primeiro dia — Ponte Bela e as Ruínas de São João Marcos — parecem frustrados. Mesmo chegar até Passa Três é agora ambicioso com a noite que chega. Organiza-se um motim para ir ao invés disso para Rio Claro, dado o acesso via asfalto. A preocupação, porém, é com os ponteiros, cujo paradeiro é desconhecido. Estamos numa região remota sem a menor esperança de sinal.








Vai-se até as ruínas, nas quais os ponteiros Renato e Betão se encontram. Conversa-se com os funcionários e conseguimos carta-branca para a visitação fora do horário. Festa. Visitamos as ruínas e tiramos fotos. Estamos lá sozinhos em um lugar esplendoroso e único. Cogita-se em um momento de insanidade de mudar de plano novamente e pernoitar em um lugar que é distinto de Passa Três e Rio Claro. Plano que é rapidamente dissipado pela voz da razão.
Tiradas as fotos e feitas todas as necessidades, saímos pelo parque pulando as cercas e pegamos o asfalto cunhístico: quinhentos metros de ganho de subida em dezessete quilômetros.




Ao chegar a Rio Claro, o debate entre bivacar ou pousar. Surge uma oferta de pousar com feijoada e café da manhã incluso num dormitório comunitário de seis vagas. Cinquenta reais por pessoa. Mesmo o mais fanático do bivaque se converteu para a feijoada. Glamping!



Dia 2: Rio Claro até o Coração da Bocaina
Acordamos às 04:20 com uma noite bem dormida no alojamento-pousada de Rio Claro. Procede-se para arrumação e para o café da manhã. Pão, ovo, queijo e café com açúcar. O quarteto matinal fantástico do interior. Exceto para o Gustavo, que capotou no ato da chegada em sua cama e fez jejum inconsciente durante a noite, sendo necessária então a reposição nutricional por via da feijoada requentada do jantar de ontem.
Despedimos então com fotos com o nosso gentilíssimo anfitrião Osnir, que nos tratou com tanto carinho e disposição de servir fartamente. Tiramos foto e seguimos asfalto adiante, com as primeiras luzes irradiando no remoto horizonte.





Rio Claro até o vale do Bananal, que se inicia em Getulândia, é uma via de asfalto com sobe e desce. Dezesseis quilômetros com quatrocentos metros de subida. O trecho é cheio de neblina, da umidade que sobe dos córregos e o trânsito é mais cheio que o ideal. O pelotão empacotado anda rápido e despacha o trecho em quarenta minutos de pernada.
A chegada ao Vale do Bananal coincide parcialmente com o traçado de uma ferrovia cujos detalhes desconheço, salvo pelo fato de possivelmente ter ponto terminal em Angra dos Reis e de ser um possível ramal de Barra Mansa. Curiosidade, aliás, deve ser citada: em Angra estão as usinas nucleares brasileiras, e em Barra Mansa estão as usinas centrifugadoras de urânio. Diz o boato de que o Parque Nacional da Bocaina foi demarcado por motivações em parte ocasionadas devido à possibilidade de acidentes nucleares. A Serra da Bocaina é a cadeira que insularia Rio e São Paulo, os dois grandes concentrados demográficos, de uma tragédia radioativa maior.
Voltando ao pedal, o percurso de Getulândia até Bananal transcorre sem grandes adrenalinas. Alguns morros e algumas planuras, com córregos ao lado. O típico trajeto dopaminíaco, gostoso, mas sem grandes elementos para alarde. A transição estadual do Rio de Janeiro para São Paulo é sempre marcante. Do lado do Rio, humanidade nas ruas, ocupação pública do espaço, vibrancia criativa e orgânica, asfaltos em condições completamente caóticas. Já do lado de São Paulo, há asfaltos lisos e com acostamentos, casas com tinta fresca, jardins aparados. Um regula, a outra deixa solto. Num deles, o carro faz o que quer e, no outro, as pessoas fazem o que querem.
Chegamos a Bananal. Um charme. Ruas de paralelepípedos e construções que remontam para os primeiros ciclos de café. Vamos para a padaria e lá nos entupimos de tudo. Guaraná Mantiqueira, pão de queijo, pão com ovo, doces, etc. Um bolo de banana de Bananal é pego e rachado pelo Felipe. Fazemos todo o estoque, pois a partir de diante estaremos no meio do nada. Ou, no meio de tudo, pegando de empréstimo a expressão do Gustavo. Recebemos uma visita da Flávia, demos abraços, tiramos fotos e partimos.



O trecho posterior à Bananal trata-se da parte onde o vale e a água do Rio Bananal começam a se estreitar, espremido em ambos os lados pelos testemunhos da Serra da Bocaina. Estamos finalmente saindo dos braços remotos do Vale do Paraíba para finalmente subir para o alto do maciço da Bocaina! A diferença altimétrica é de mil e cem metros, a serem digeridos em dez quilômetros. A transição é muito curvada e cênica, com diversas cachoeiras brotando dos gnaisses e mirantes onde se percebe a quantidade de curvas da estrada no horizonte: em certas instâncias, dois dígitos por olhar.










Realiza-se a subida em duas horas, na qual se segue uma descida, ainda via asfalto, até um lugar de denominação ambígua. Alguns chamam lá de Brastel e outros chamam de Bocaina. Na dúvida, eu o chamo de Alto Vale do Bracuí, uma pequena planície onde há um reservatório e algumas poucas pousadas. Lá é a fronteira final do asfalto e onde se iniciam as estradas precárias que nos levam para o Sertão da Onça, o ponto de acesso para o Parque Nacional da Serra da Bocaina. Independente da terminologia, estamos oficialmente nos altos do maciço da Bocaina.
Aproveitamos uma pousada para fazer um breve almoço, pois a partir de então a comida somente será encontrada após descer novamente o maciço da Bocaina, lá perto dos Campos de Cunha. Aproveitamos também do privilégio de encher nossos reservatórios de águas das minas do maciço da Bocaina, cuja mineralidade deve ser das mais diversas. Noto também que nesta pousada há muitos quadros e certificados. O Exército aparentemente frequenta bastante essa região e os funcionários da pousada são pessoas buen-gratas aparentemente.
Antes de partir, uma discussão é feita acerca de esperar o Jansen. Betão opta por esperá-lo na pousada, dado a situação erma dos trechos seguintes. Seguimos. Começa a terra que se estenderá pelos próximos dois dias.




A terra inicia com anedotas. Busquei convencer os companheiros do valor de se fazer transplante de suor nos casos em que a água remanescente para beber é esparsa. Tal transplante consiste em pegar água onde há dúvidas sobre ser potável, como as de córregos e minas sedimentares, e despejá-la sobre o corpo. Um banho. A ideia é que a dissipação corporal de calor depende da evaporação majoritariamente, e que o principal causador da desidratação é o direcionamento da água ingerida para isto. Ao jogar água não potável no corpo, indiretamente é como se subsidiasse o suor sem a necessidade de ingerir água para tal. A frase “transplante de suor” pegou e virou postagem nas redes sociais.

Ao chegar no Sertão da Onça, Gustavo se emociona e insiste em tirar uma foto grupal na frente do Posto de Saúde da Onça, ou melhor ainda: A Escola da Onça. Feito, e começa o empurra-empurra. Passamos a contornar então o Rio da Onça, que é particularmente interessante por formar uma das “entradas” serranas que dá no mar: trata-se de um vale estreitíssimo formado por águas nascidas do Bocaina e que correm diretamente ao oceano, formando escarpas pelas quais pedalamos e nos deslumbram. Formações interessantes surgem: morros-bolota, vales bucólicos, lagos de coração, nádegas geomorfológicas, pontos de sela e a famigerada estrada em formato de S de Sofrência. Ou S de Sertão.









Como sempre, sobe tudo para descer tudo. Lá embaixo, estamos no vale do Rio Mambucaba e estávamos prontos para entrar no Parque Nacional da Serra da Bocaina. A expectativa era de chegar no ponto de acampamento no pôr do sol. Na realidade, iriamos chegar somente às dez da noite. Explico: completamente impedalável. Valetas de 50 a 80 cm de profundidade. Pedras de 40 cm de diâmetro soltas em fartura. Lama por todo lado. Tenho minhas dúvidas se jipe passaria lá. De qualquer forma, há agora uma subida e descida de seiscentos metros, distribuídos por quinze quilômetros em uma floresta densa. Não fiz muitos registros, exceto por uma queda do Felipe ao passar por um córrego de lama.
Já escuro, lá no alto, encontramos o Jansen e o Betão muito por acaso, ao desligarmos as luzes para apreciar as estrelas e notar que havia um farol aceso nas proximidades. Emocionante.
Ainda mais emocionante, foi o trecho final após o sobe e desce inicial, no qual se havia um falso plano com alguns trechos rolados. Pedalamos por três horas no escuro em uma estrada que só pode ser descrita como apropriada para MTB Enduro, com lamaçal e valetas fartas. Uma experiência sensorial épica. Entre o topo no escuro e o acampamento, levamos cerca de três horas e meia sobre quinze quilômetros.




Finalizamos a noite com banhos na base de lenço umedecido nos banheiros da portaria do parque, seguido da chegada no acampamento, onde todos se encontravam. O jantar foram os sanduíches empacotados de Bananal junto a algumas iguarias feitas na fogueira. Renato se contentou com o miojo com salsicha. Hora de dormir, pois o dia foi longo. Caio na cama as onze da noite, com o frio da Bocaina marcando seis graus.




Dia 3: Coração da Bocaina até Bairro dos Macacos
Acordamos em torno das sete da manhã. A noite foi muito fria e os termômetros dos ciclocomputadores chegaram a marcar três graus Celsius de temperatura. Dormi razoável, apesar de sentir brisas geladas. Alguns outros, porém, não tiveram a mesma sorte, com menção especial ao Renato, que teve sua barraca completamente condensada e que o fez ter que pedir refúgio nas barracas alheias, no caso, a do Vinicius – que o lhe acomodou com alegria, em plena madrugada.
O dia acorda bem lento. O sítio do acampamento está ao lado de uma rocha que bloqueia o sol matinal e, ao mesmo tempo, o Rio Mambucaia corre ao lado. A mistura da demora da temperatura subir e a umidade faz com que todos acordem bem lentamente.
A saída apenas se deu lá pelas nove e meia da manhã, com a ajuda de uma fogueira montada pelo Gustavo e com os primeiros raios de sol esquentando as bicicletas e os corpos.








Começando a pedalar, torna-se óbvio estarmos em um bioma completamente diferente, formado de campos ao meio do mar de morros. Lembra uma savana. Uma pastagem selvagem. O vento é frio e torna-se rapidamente claro que as esparsas florestas trataram de ocupar os poucos terrenos que se encontram refugiados do vento e abastecidos da água das nascentes dos córregos. A visão é telescópica: é possível visualizar as curvas das subidas e descidas a serem transcorridos em algumas horas no futuro. A sensação é cinematográfica e tri-dimensional, com os ciclistas de nosso bando estando próximos e distantes simultaneamente. Embaixo e em cima. Subindo e descendo. A peculiaridade da topografia multi-escala: declives curtos, médios e longos, todos estando à vista.



Os solos e a textura da terra são um tanto peculiares. Predomina um amarelo no chão escurecido, beirando o laranja. A terra das paredes é multicolorida e passa por todo o espectro do arco-íris, salvo pelo azul, presente no céu. Terra verde, roxa, vermelha, preta, branca, amarela. Está tudo lá. As valetas lembram pequenas cavernas, repletas de pedras e cristais. Olhar para perto da terra é um espetáculo à parte. Incrível deve estar lá numa expedição naturalista.



As paisagens são oceanos de morros esculpidos por água e vento, de uma forma marcante. Sinais de ocupação humana são escassos, salvo pelas estradas, contatos esporádicos com tropeiros e suas habitações, muitas das quais se encontram abandonadas. Inclinações acima de 15% são a regra, obrigando a todos a empurrar as bicicletas carregadas por muitas vezes.




É uma emoção estar aqui, nesta rota tão especial, cruzando as cristas do Bocaina. Um lugar cheio de sentidos para quem aprecia estar neste planeta. Venham peregrinar aqui. Venham refletir sobre a vida alheia e própria no meio desta diversidade. O cume desta sensação boa tem o seu ápice nas proximidades do Rio Piratininga, onde se encontram segmentos no Strava cuja nomenclatura varia de “Força que Ainda Tem Muito Mais” e “Depois Do Córrego FDP” para até “AI COMO DOE”. Antes deste segmento, encontramos um mirante amplo com uma vista para a Mantiqueira que não há palavras. Vale do Paraíba coberto por nuvens, divisão horizontal branca, e Mantiqueira no topo das nuvens com toda sua glória. Já depois deste último segmento, tive uma vista rara, algo que cativa a minha sensação ainda neste momento de escritura do relato: um pantanal no alto da Bocaina.




Este pantanal está em um vale incrivelmente amplo localizado a 1800 metros de altitude. Presumo que deve ventar muito. Enquanto seguimos a nossa rota, passamos por uma crista com vista cheia para a várzea deste bioma desconhecido. Seria um tipo de tundra alpino? Seria uma variante pantanosa dos campos de altitude? Pelo que investiguei pelos olhos remotos dos satélites, tal formação, se for algo não antropogênico, provavelmente tem somente cerca de 3 ou 4 primos com amplitude similar, lá na Mantiqueira. Alguns lá no Alto do Gomeral, na Fazenda Lavrinhas, e outros lá na Itatiaia.



Após este espetáculo, começa-se a subida final para o Alto da Boa Vista, onde, conforme descrição verbal do nosso colega Felipe, poderia ser descrito como um trecho onde “caiu um meteoro”, e que todos nós iriamos xingar muito ele e o Gustavo por nos botarem nessa situação. Atesto que a projeção foi acertada acuradamente. Antes de sofrer, tiro uma foto de todos empurrando lá frente, pois a amplitude é magnífica. Após, passo então a empurrar.




São quatro quilômetros com cento e cinquenta metros de subida e duzentos de descida, nos quais tudo que se há é um gorfo geológico de pedras soltas e valetas formadas de rochas maciças. Até andar sem bicicleta é desafiador. Nas proximidades do Alto da Boa Vista, a água de todos começa a escassear. Os sinais amarelos começam a bater. Tiramos fotos do conjunto de morros lá de Cunha e iniciamos a descida sem dispor muito tempo. Fiquei de investigar um pequeno relato feito pelos outros, que disseram que nas casas lá no alto havia placas indicando radiação. Bocaina é discreta, mas todo dia parece recebermos um indício de existir uma área 51 lá.



Com a descida iniciada, a prioridade é água. O desespero é forte. Em algum momento, encontramos uma casa isolada com cachorro latindo. Não há nenhum humano dentro. O cachorro late e não sabemos se está solto ou não. Todos estão sem água há horas. Decidimos então por cometer o delito. Furto qualificado de água da torneira. Estávamos prontos para enfrentar a resistência canina se necessário, mas felizmente ele estava preso e a resolução foi pacífica e ordeira.
Desce, desce e desce. A partir de então, pegamos um rolado de estradão e um asfalto. Estamos no Bairro dos Macacos, onde uma padaria nos espera. Usamos o tempo para nos entupir de comida e para ficar indignados com os idealizadores da rota, que nos botaram para empurrar por dois dias consecutivos sem a menor dó ou empatia com as nossas bicicletas, que tiveram de ser arrastadas impiedosamente. Injúria que se faz agravada ao se considerar que para esta rota foi designada o adjetivo de “Nutella”, ou então de que se esta é a La Bocainita, haveria também a La Bocainona, uma homenagem ao sucesso parcial segundo as fontes oficiais.


Cogita-se pegar o asfalto até Cunha via Campos de Cunha, ideia que foi deixada de lado com o fim dos raios do sol. Pegamos uma pousada, pois o cansaço era grande. Nove pessoas em um quarto, nos quais constam três camas de casal e três camas de solteiro. O objetivo da noite é descansar bem para chegar bem amanhã.
Dia 4: Bairro dos Macacos até Paraty
O dia começou cedo. Acordamos às 04:00 para sair pontualmente às 05:00. O café da manhã para mim foi a pasta-gel do Mombora, o de Mocha. Ótima pedida. Meio que descrevo isso como sendo a padaria cinco estrelas de emergência, tudo feito com ingredientes nativos tais como Cambuci, Açaí-Juçara, Cajá e entre outros. Todos partiram juntos, exceto pelo Janssen, que estava determinado a seguir no modo cicloturista de verdade. O La Bocainita até tentou ser cicloturista, mas o efeito manada escambou num brevê randonné com paradas para fotos, dormidas e esperadas. Saindo da pousada no dia 4.


Estava tudo escuro. O sol ainda estava distante do horizonte e a umidade ainda estava no solo, o que resultou num céu estrelado muito visível durante os primeiros 15 minutos de pedal. Até que as primeiras luzes bateram no horizonte. Com a coincidência da rota seguir o Rio Paraitinga e seus afluentes, resultou-se de repentinamente estarmos no interior de oceanos de névoa, a rasante dos mares de morros dos Campos de Cunha. Em certos momentos, havia a vista magnífica de nuvens embaixo de nossos pés, cercadas e restritas pelos morros. Em outros momentos, a perspectiva era de apocalipse zumbi. Um pelotão de ciclistas cansados por 4 dias empurrava morros de inclinações raras.








Todo esse esplendor acabou com um capote. Ao descer muito rápido, de surpresa aparece uma sequência de três valetas com quase 1 metro de profundidade cada e cerca de 30cm de comprimento, os quais estavam localizados numa curva de 75 graus e com raio de cerca de 10m, inclinadas lateralmente em cerca de 30 graus. Demais para as minhas rodas de 60cm de diâmetro numa velocidade de 30km/h para rolar por cima, e demais para o reflexo e tração desviarem.
Fui arremessado e paralisado no chão por 5 segundos. Gustavo, Renato, Felipe, Pedrinho e Vinicius lá acompanharam por todo o momento. Betão também. Injúrias corporais incluíram pancadão na coxa direita, pancadinha no ombro direito, e ralado na mão esquerda. Injúrias mecânicas foram da roda e pneu dianteiros entortados, câmbio dianteiro sem passar e guidão torto. Este último foi resolvido na força bruta. O câmbio dianteiro foi resolvido em Cunha repuxando o cabo, pois ele estava solto. Já a roda e o pneu foram um desafio: o pneu pegava no garfo, impossível de andar sem resolver. Parcialmente resolvido no começo através de tensionar os aros por Gustavo e mim. Completamente resolvido em Cunha ao torcionar o pneu enquanto murcho.
O trecho seguinte foi ensolarado, pela Estrada Real até Cunha. Para ser sincero, fiquei azedo neste trecho e pouco fiquei observando. Apenas voltei para a emoção após parar em Cunha, se entupir de espresso, tubaína e pão de queijo, mas principalmente resolver definitivamente a bicicleta. Agora, ela estava ainda melhor do que quando começou o La Bocainita. Mais alinhado e mais regulado. Durante a estadia nesta parada de Cunha, diálogos interessantes se desenrolaram.
Um grande dilema se instalava sobre o Pedrinho: descer ou não descer a serra? O seu pneu de 32 milímetros havia sido rasgado na banda lateral com um corte de 5 centímetros, o qual foi isolado por uma fita isolante. Cunha não tinha ônibus para Paraty. E descer a serra Cunha-Paraty é o que é. No final, ele desceu, prudente e alimentado de todas as informações relevantes que poderíamos fornecer. Às 11h da manhã, parte-se novamente um micro pelotão formado por mim, Gustavo, Renato e Felipe. Betão e Vinicius haviam saído antes para ter certeza de que estariam em Paraty junto conosco.
O trecho final trata-se do começo da Estrada Real, feita de bloquetes e estradas de terra. No meio, há cachoeiras magníficas como a do Desterro, na qual fizemos uma pequena parada e que estava vazia de visitantes. Os mais sábios entre nós aproveitamos a parada para tomar um banho naturista enquanto outros de nós ficamos observando a paisagem e os sons. No caminho, há a Pedra da Macela, uma das cerejas do bolo do La Bocainita. O qual pulamos. Chegamos à sua entrada lá pelas 16:00, e as nossas estimativas diziam que chegaríamos exatamente ou mesmo após o pôr do sol. Optamos por pular, pois ir nela implicaria descer a perígosissima serra no escuro.




A descida foi incrivelmente calma. Subi aqui uma vez em 2021, no contexto de treinar para aquela tentativa dos 28 dias, e lembro de ter sido chocado pelo quão traiçoeira era. Continua traiçoeira: inclinações súbitas de 20%+, vias simples em determinados momentos, bloquetes afundados em partes moles, o que incita a mudança súbita de direção, e carros rápidos que invadem a outra faixa inteiramente. Mas aparentemente alguma manutenção foi feita entre lá e aqui.
Chegamos então a Paraty. Felipe e Renato são a companhia. Já o Gustavo se empenhou para subir a Macela. Uma pequena epopeia é feita para assegurar uma embalagem apropriada para levar a bicicleta no ônibus, no caso, uma mala bike artesanal feita por mim mesmo e constituída de sacos de lixo e fita isolante. Feito isso, para a pizzaria vamos para comemorar. Que viagem!




Palavras Finais
Um evento sem palavras e de difícil sumarização. Talvez pela experiência multinível completa: a saturação dos sentidos e do significado. É emocionante imaginar a emoção do Gustavo ao subir a Pedra da Macela sozinho para lá encontrar o Betão. É instigante imaginar os pantanais de atitude e pensar que, se reais, devem existir somente cinco ou seis deles. Foi uma experiência onde se empenharam dez pessoas onde todos sabem pelo que passaram. Pelo solo, céu, mato, clima e assuntos. A sincronia interpessoal é inigualável, praticamente telepático.
Tenho vontade de voltar para a Bocaina. De vir com amigos naturalistas. Entender o que são aqueles solos multicoloridos. Pousar na flora e observar atentamente a fauna. Lá é um local óbvio para a peregrinação.
Fico muito feliz de ter tido esse momento compartilhado na vida, e agradeço a todos que pedalaram juntos. Andrey Rodrigues (@rr.andrey), Beto Jordão (@betojordao), Felipe Arêas (@areasfelipe), Gustavo Saiani (@gusaiani), Humberto Afonso (Betão), Jansen Torres (@gravelstories), Pedro Henrique (@obrabo.cc), Renato Vasconcellos (@rolesdorenato) e Vinicius Barros (@vinicius_barros_t). Junto a mim, Danilo (@dandanlessa), somos os Dez da Bocaina.












Os Dez da Bocaína. Da esquerda para direita e cima para baixo: Andrey, Betão, Subida para o Maciço da Bocaina, Beto, Danilo, Felipe, Gustavo, Jansen, Pedrinho, Subida para o Alto da Boa Vista, Renato e Vinicius.
Agradeço também a todos pelas várias mostras de solidariedade pelo caminho. Citar exaustivamente seria um desafio, mas enuncio em especial o Gustavo, Felipe, Renato, Pedrinho e Vinicius por me acompanharem e auxiliarem quando tive a queda lá em Cunha e por instante foi vislumbrado um DNF por questões de roda torta. Minha memória ficou concentrada na roda, então, se omiti alguém, me fale no privado.
Finalmente, um agradecimento exclusivo e especial ao Gustavo, pela hospedagem no dia anterior antes da largada. Um privilégio relatado no dia 0!
Mais Recursos
Mais Relatos
Jansen (Gravel Stories)
O Jansen fez uma cobertura quase ao vivo do evento, com postagens diárias. Nos últimos dias, começaram a ser publicados vídeos no YouTube nos quais diversos recortes foram filmados. Uma ótima janela para sentir um pouco do evento.
Que peregrinação épica! Parabéns a todos. A Bocaina deve ser única mesmo.